Antonio Arles ¹

A Rede e suas plataformas têm temporalidades diferentes e o Twitter é uma das plataformas mais rápidas para propagação de ideias. A plataforma também se configura em uma das mais fáceis de se obter dados, podendo assim ser feito um trabalho de coleta e estudo por “terceiras partes”, o que a torna, neste sentido, mais transparente.

O Twitter é muito usado para mobilizações de rede e na maior parte do tempo a extrema direita consegue pautar o debate. Por vezes, no entanto, eles perdem, pelo menos momentaneamente e no tempo desta plataforma, a condução da narrativa.

Foi o que aconteceu no último de 16, quando perfis extremistas tentaram levantar o debate sobre a questão do aborto. Para isso, inflamaram as suas redes com palavras de ordem e chegaram a cometer crimes, publicando dados de uma menor de idade em seus perfis.

Mas, pelo menos naquele momento, o que conseguiram foi despertar a repulsa de boa parte das cidadãs e cidadãos conectados que se envolveram no debate. A grande maioria reagiram indignada à tentativa de criminalização da menina que havia sido estuprada e estava grávida de um feto fruto desta violência.

Durante o dia 16, quando pesquisados termos envolvidos na polêmica junto à API do Twitter, conseguimos capturar a ação de 466.274 usuários, que publicaram com palavras concernentes ao tema mais de 1 milhão de tweets. O número de comunidades formadas depois da submissão à algoritmo de clusterização foi de 2.934, sendo que estas comunidades são formadas por padrão de interações.

Grafo Geral

Como podemos ver na figura em destaque, vários grupos (várias cores) se concentraram no centro do grafo. Os perfis que formaram esses grupos são francamente contrários a criminalização da menina e reagiram indignados a esta tentativa de criminalização e aos protestos organizados por grupos religiosos para constranger médicos e até mesmo a criança.

É possível também verificar um grupo que se destaca do todo, figurando na parte superior direita do grafo. Este grupo foi o que realizou a tentativa de pautar a rede, criminalizando a menina e apoiando os protestos.

Grafo Cluster 15

Podemos verificar que este grupo, pelo menos naquele momento, era muito menor do que o todo dos envolvidos no embate sobre a temática. A comunidade que se destaca nesse grupo isolado corresponde a apenas 2,88% dos perfis engajados*.

É uma pequena vitória, foi conseguida graças à mobilização instantânea de militantes no Twitter. É importante estudar os elementos dessa vitória parcial para que possamos derrotar os extremistas mais vezes, voltando a reconduzir as pautas nas redes.

* Como os dados foram coletados no dia 17 e a Justiça havia determinado a suspensão do perfil de uma das principais articuladoras extremistas, os tweets do perfil principal de Sara “Winter” não estavam mais disponíveis, o que fez com que não constassem para fins desta análise. No entanto, devido à discrepância entre os dois lados em disputa, isso não interfere para o resultado final da mesma.

1 - Artigo publicado em parceria com Patrícia Cornils e Tiago F. Pimentel