Plataformas de Rede não são feitas apenas de números de usuários, mas principalmente de dinâmicas.

O Facebook, por exemplo, apesar de ter uma enorme base de usuários, não “entrega” todo este potencial a quem publica nele. Seus gargalos algoritmos fazem com que a Rede seja lenta, apesar de ser muitíssimo importante na consolidação de ideias e discursos.

Por outro lado, o YouTube é uma plataforma de rede social pouco explorada como tal. A maioria de seus usuários acredita estar vendo apenas um vídeo, quando na verdade está movendo engrenagens complexas que fazem com que tais e tais conteúdos cheguem a uns e a outros não. Existe potencial a ser explorado para além da simples produção de conteúdos para a Plataforma.

O Whatsapp se configura como um grande produtor de indução discursiva baseado sobretudo na confiança. A construção de hubs de disseminação como canais e grupos genéricos é importante, mas não é aí que está a força da Plataforma, apontada em pesquisa recente. A sua força está nas relações de confiança estabelecidas entre os participantes de grupos de afinidade, os tais “grupos de família”. Ali que as ideias disseminadas de forma mais ou menos orgânica em grupos maiores são consolidadas e fazem as pessoas afirmarem que se informam prioritariamente pela Plataforma.

Por último, na rabeira dos números, o Twitter. O “patinho feio” das plataformas de redes sociais, no entanto, tem lá seus encantos, principalmente para a comunidade mais técnica e especializada, indo de comunicólogos à marqueteiros, de desenvolvedores à cientistas de dados. É que, ao contrário de outras plataformas, o Twitter ainda é relativamente aberto em relação aos dados da Plataforma. Com o Twitter se pode desenvolver sistemas de acompanhamento em tempo real e também assíncronos, permitindo sentir a temperatura do que se fala nas redes como um todo e gerando insights importantes para a condução das estratégias de comunicação/marketing.

A dinâmica do Twitter permite que temas sejam rapidamente disseminados e chegue a influenciadores de rede e até a veículos tradicionais de imprensa. Também os temas ali levantados influenciam em outras plataformas. O Twitter, apesar dos números modestos, é um importante hub de distribuição de tendências/discursos. Não foi sem motivo que Bolsonaro chegou a usar o Twitter como “sala de despachos” a exemplo de Trump e outros líderes mundiais.

No caso específico de Bolsonaro as ideias eram trabalhadas no Whatsapp e, quando ganhavam força, levadas ao Twitter que, por sua vez, era responsável por pautar principalmente a imprensa. Assim, quando o cidadão conectado via aquelas ideias debatidas na intimidade do Whatsapp reverberarem para fora dele, ele se sentia participante do processo, aumentando a sensação de cumplicidade e pertencimento com o movimento que ele apoiava.

Existem formas e formas de se trabalhar com redes. Não é prudente acreditar em argumentos fatalistas ou finalistas em relação a esta ou aquela plataforma. Todas têm suas dinâmicas próprias e é importante estudá-las e respeitá-las, praticando um “Do-In” onde, atingindo pontos específicos, é possível fazer crescer e se consolidar os ecossistemas-Rede que se pretende criar e manter para uma maior eficiência comunicacional.

Publicado originalmente em 10/12/2019